Opiniões próprias às 2as, 4as e 5as
7 de outubro de 2026

Lulinha, Jair Renan e a balança torta da imprensa

Dois filhos de presidente, investigados pelo mesmo crime. Só um deles virou manchete por semanas.

5 min de leitura

Dois temas foram bem relevantes para as eleições até agora: os inquéritos que investigam o filho do presidente Lula e as relações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

Mas, antes de entrar nos detalhes dos dois casos, já vou meter o Jair Renan no texto. O filho 04 do capitão, que estava combatendo o “sistema” de Balneário Camboriú. O que ele tem a ver com isso?

Durante o governo Bolsonaro, ele foi investigado pela Polícia Federal por tráfico de influência. Ele teria usado o nome do pai para facilitar o acesso de empresários a órgãos do governo federal, como o Ministério do Desenvolvimento Regional, em troca de vantagens, como um carro elétrico de R$ 90 mil e reformas em uma sala comercial. Em agosto de 2022, a PF concluiu o inquérito sem indiciar o Jair Renan, afirmando não ter encontrado provas suficientes. Maravilha, assim é a justiça: investiga, indicia ou não. Sem querer pegar no pé do 04: em outro caso, ele virou réu por falsidade ideológica, uso de documento falso e lavagem de dinheiro.

O Lulinha é investigado justamente por suposto tráfico de influência. Igual ao Jair Renan. São três inquéritos: a PF apura se ele ajudou o Careca do INSS junto ao Ministério da Saúde, se favoreceu uma empresa em contratos com a Dataprev e se intermediou negociações no governo com a ajuda de um ex-chefe de gabinete do pai. E outro detalhe: quem autorizou dois desses inquéritos foi o ministro André Mendonça, indicado pelo Bolsonaro. Lulinha não foi indiciado e nega tudo.

Dois filhos de presidente, investigados pelo mesmo suposto crime. Fui contar quanto os dez maiores portais do país falaram de cada um.¹

Peguei os primeiros 26 dias de cada investigação, que é o tempo que o caso mais recente, o do Flávio, tinha quando fiz a conta. Foram 1.334 matérias sobre o Lulinha. Sobre o Jair Renan, 62. O filho do Lula recebeu 21 vezes mais cobertura.

“Ah, mas o volume de notícias muda de um ano para outro.” Fiz essa conta também: na mídia nacional inteira, o caso Lulinha ocupou 1,045% de tudo o que foi publicado no período; o do Jair Renan, 0,063%. Ainda assim, 17 vezes mais. Alguém me explica?

Agora deixamos o 04 e passamos para o 01. O inquérito do Dark Horse, que investiga o senador por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, teve 2.078 matérias nos mesmos dez portais, nos 26 dias seguintes ao momento em que veio a público. Cerca de 55% mais que o caso Lulinha. E é assim que tem que ser. O Flávio é senador e candidato a presidente. E o caso dele é escancarado: tem áudio dele mesmo cobrando do dono do Banco Master o dinheiro para o filme sobre o pai, e pelo menos R$ 61 milhões enviados a um fundo nos Estados Unidos. No caso do Lulinha, o que se conhece até agora são mensagens dele com uma lobista sobre negócios, uma viagem a Portugal paga pelo Careca do INSS, que ele admitiu, e relatos de terceiros sobre pagamentos. Não há áudio ou mensagem dele cobrando dinheiro, nem pagamento a ele comprovado.

Ou seja: um caso é muito mais grave e envolve quem pode virar presidente, e mesmo assim o filho do Lula, que não concorre a nada, recebeu quase dois terços da atenção dada ao candidato.

“Ah, tá defendendo o Lulinha, né, petista!?” Tô nada: que se investigue. Se fez besteira, que pague. É interesse público, e a imprensa tem que noticiar, sim. Mas noticiar é uma coisa; fazer do filho do Lula manchete todo santo dia, enquanto o filho do Bolsonaro, investigado pelo mesmo crime, passou quase batido, é outra. Vinte e uma vezes mais não é rigor. É escolha. Se a régua fosse a mesma, ou o Jair Renan teria sido manchete por semanas, ou o Lulinha não seria. Essa balança aí tá muito torta.

E isso parece pesar no voto. Na Quaest, antes de o caso Lulinha estourar, o Lula tinha 8 pontos de vantagem sobre o Flávio no segundo turno (45% a 37%). Duas semanas depois, a diferença tinha caído para 3 (43% a 40%). Agora repara: o caso do Flávio teve ainda mais cobertura. Antes de o inquérito do Dark Horse vir a público, a Quaest mostrava empate (41% a 41%). Duas semanas depois, quem estava na frente era ele (42% a 41%). Áudio cobrando dinheiro de banqueiro, inquérito por lavagem, R$ 61 milhões mandados para fora do país… e o candidato sobe. Pelo jeito, corrupção só tira voto quando vem da esquerda. Mas esse é assunto para outro texto.


¹ Como foi feito o levantamento. Usei o Media Cloud, ferramenta de análise de mídia mantida por universidades americanas. Contei as matérias que citavam cada caso nos primeiros 26 dias a partir do dia em que a investigação virou notícia. A janela corresponde ao período disponível do caso Flávio na data do levantamento e foi aplicada igualmente aos três casos.

Lulinha: “Lulinha” ou “Fábio Luís Lula da Silva”, de 30/7 a 24/8/2026. Jair Renan: “Jair Renan”, de 14/3 a 8/4/2021. Flávio Bolsonaro: “Flávio Bolsonaro” junto com “Dark Horse” ou “Vorcaro”, de 10/9 a 5/10/2026.

Os dez portais: UOL, Globo, Estadão, Metrópoles, Terra, Abril, Correio Braziliense, Estado de Minas, Gazeta do Povo e iG. Folha e CNN Brasil ficaram de fora porque a ferramenta não os coleta em 2026. Na mídia nacional como um todo (171 veículos), o resultado se mantém: 1,045% contra 0,063%, ou 17 vezes mais. O Flávio ficou com 1,620%, cerca de 55% acima do Lulinha.

A ferramenta conta qualquer matéria que cite o caso, não só manchetes, e sua cobertura de cada site pode variar ao longo dos anos.

8 de outubro de 2026LiberdadeMenos Estado, mais você.5 de outubro de 2026Tá ruim, né? Já foi pior. E pode piorar.Com o Senado que saiu das urnas e até quatro vagas no STF em jogo, o segundo turno decide se ainda vai sobrar algum freio.